E entre todas as lembranças doces que a vida me trouxe, porque essas? Quer guardá-las, tudo bem; satisfaça sua nostalgia contraditória da dor, envolva-as em sua cúpula dourada de sofrimento. Tenha-as, mas como o que realmente são: memórias. Não guarde a mágoa. Não guarde o medo. Não preserve cada detalhe. Deixe o tempo vir e anuviar tudo aos poucos. É sua escolha, mas a dor é minha. Minhas unhas arranhando a minha pele. E você, no seu invólucro de entidade abstrata, incapaz de sofrer como sofro, escolhendo a dedo o que mais lhe apetece, revolvendo as lembranças em meus sonhos como se fossem dias, e não anos, de distância. E você, na sua hipocrisia carente de amor e mácula, que me diz tão desejosa de um calor aconchegante e me obriga a aspirar o contrário. E você, que me define assim, fugindo ao meu suposto controle. Parece contorcer-se de prazer ao procurar a própria ruína. Pois sem mim, esse ser que você tanto corrói, você não é nada. É a fraqueza solitária do que não tem corpo, do invencível que nos atormenta em nossa própria cabeça: a dependência parasita de nossa existência. É, contra ti, meu único triunfo.
(Março 2011)

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