se a vida me deixasse em paz
talvez eu respirasse com você
assim tão melodiosamente,
eu talvez respirasse com você
ou se a vida me deixasse com você,
eu talvez melodiasse ao respirar
eu talvez respirasse melodia
mesmo sozinha
brincando de paz
(Outubro 2013)
ismos de ta
Coco pra sossego
Naquele mar de pedrarias
O sol brincou de se esconder
e desenhou fogo na areia
O vento de sal canta na ilha
Colore as palmeiras de sossego
as ondas do mar ele pranteia
Ela vem beirando a maré
cantando o sonho de seus filhos
É canto de mar, canto de dor
No azul que toca o céu e a terra
Na lágrima eu faço a minha reza
Iemanjá me traga um amor
(Fevereiro 2013)
O sol brincou de se esconder
e desenhou fogo na areia
O vento de sal canta na ilha
Colore as palmeiras de sossego
as ondas do mar ele pranteia
Ela vem beirando a maré
cantando o sonho de seus filhos
É canto de mar, canto de dor
No azul que toca o céu e a terra
Na lágrima eu faço a minha reza
Iemanjá me traga um amor
(Fevereiro 2013)
Mosqueando
Concedeu-me o tempo de um pavio.
Iluminada a partida, fiquei só, matutando a ausência de sua réstia de luz, esquecendo de me perguntar de que diabos me serviu tamanha sombra a escorregar, tão fugidia, do alcance de meus olhos. Esvaía-se a cada gota de cera a proteção leviana com a qual me afortunara. Irônico! Sei hoje que previa em minha angústia de não sei o quê nem porquê nem pra quê que a escuridão não deixaria por menos, e anunciaria teus passos ruidosos em direção a qualquer outro lugar que não aqui, avultando-se sobre minha chama preciosa a cada sussurrar de inspiração.
E te pergunto, aprendiz de vaga-lume: de que me serviu?
E no mais, de que te serviu tamanha obrigação? Guardasse pra teus amores mais amores esse punhado de Sol passageiro, se algum dia deixar que o vejam sem óculos escuros: não o quero! Não quero mais tuas ceras esculpindo meus sonhos. Não quero mais o seu tenho-quê. Vá, dever cumprido, que me acho sozinha, no escuro que vier, sem contagem regressiva-missiva-volátil-passadiça ou qualquer iva com a qual queira me presentear. De presentes já me basto. De luz, me aquece o Sol de fim de tarde, que avermelha a esperança de seus súditos com sua intenção de desaparecer enquanto os conforta com a certeza de sua volta inevitável.
(Novembro 2012)
Emboras
O frio foi embora
O gato foi embora
O ócio foi embora
A dor foi embora até mês que vem
A paz vai embora quando lhe convém
O embora fica e não deixa nada ficar
A solidão volta e não te deixa voltar
Mas o que me dói
Não é o frio, o gato, o ócio ou a paz
Ou tantas outras coisas que o tempo desfaz
Não é a minha solidão.
O que me dói é a dor que não dói em você
Quando vou embora sem ter nem pra quê
Quando o mundo me chama pra longe daqui
E você me deixa ir, me deixa ir...
(Outubro 2012)
O gato foi embora
O ócio foi embora
A dor foi embora até mês que vem
A paz vai embora quando lhe convém
O embora fica e não deixa nada ficar
A solidão volta e não te deixa voltar
Mas o que me dói
Não é o frio, o gato, o ócio ou a paz
Ou tantas outras coisas que o tempo desfaz
Não é a minha solidão.
O que me dói é a dor que não dói em você
Quando vou embora sem ter nem pra quê
Quando o mundo me chama pra longe daqui
E você me deixa ir, me deixa ir...
(Outubro 2012)
Vão
Espera essa que me espera tanto, espero, espero, espero o tempo que não vem. Penso que passei a vida toda a esperar essa esperança que nunca vem. Esperei triste, esperei feliz, e hoje a espera só me cansa; e vivo ainda a esperar, mesmo que cansada da espera, mesmo sem tempo pra passar. De ócio passei ao morto, na espera me vi dissoluta, dissecada, dissonante, um tédio eterno de espera passada. Esperei justiça. A que mais doeu. Espero ainda que me venha num presente de esperança perdida. Espero em vão, em vão de mim mesma, pois espero sem esperar. De tanta espera que me traz percebo que não espero nada, só mais do mesmo, da mesma loucura sem esperança que dominou os meus dias. Vejo a tolice crua da minha espera louca pela volta da espera que me trouxe ao tédio. Vejo a ironia frouxa de não ter mais nada pelo que esperar. Tanta ousadia vã.
Só espero que não espere mais força que tenho. Só espero menos sofrer a me esperar.
(Abril 2012)
Só espero que não espere mais força que tenho. Só espero menos sofrer a me esperar.
(Abril 2012)
Dolorido
Enroscar, perecer, ceder, doer, vagar, despedaçar, sorver, esmiuçar, olhar (de perto),
sentir, criar, abrir mão, construir, amar, destroçar, querer, arder, rir, sair, por aí, por aqui.
Saudade, angústia, alívio e sono. Tão, são, quão, qua... quecetuba? Talvez até alguns... neologismos.
(tanta palavra e só o que eu queria era
sentir, criar, abrir mão, construir, amar, destroçar, querer, arder, rir, sair, por aí, por aqui.
Saudade, angústia, alívio e sono. Tão, são, quão, qua... quecetuba? Talvez até alguns... neologismos.
(tanta palavra e só o que eu queria era
Contratempo
Ele era-te tão naturalmente necessário que seus efeitos só se fizeram perceber quando partiu. A ausência clareou cruelmente o quanto te fizeram crescer num contratempo. Sob tal luz, vê-se irônica a satisfação que insistiu em carregar como se o furor fosse fruto de si mesma. Quem dera... Irônico também é que tal saudosismo agora te parece tão indispensável, e a lacuna que ocupara tão dolorosa, que parece não considerar que viveu - e ainda vive, exceto por pequeno espaço de tempo - todo esse tempo sem sua presença. E nunca sonhou com tamanha dádiva: não pode dizer que sempre a quis. Mas agora sua ausência dói. E o ar te foge enquanto olha suas mãos e se pergunta porque não é capaz de recriá-la sozinha. Percebe que há coisas que só se nota quando se perde, como a mágica naquelas mãos de gente que tornavam bonita qualquer coisa que tocassem. E restam os porquês. Com eles, as angústias. Pois você nunca saberá porquê tudo que se tornara bonito hoje é cinza. Não chegou a decifrar a mágica o suficiente para tal explicação. Talvez, se ele se demorasse um pouco mais, você fosse capaz de fazê-la eterna. Mas ele partiu, e há coisas que só se nota quando se perde, como a calma daquele rosto em polvorosa que presenteava com a paz qualquer coisa que beijasse. E restam as lembranças. Com elas, os desejos. Pois em meio à maré de calma que ele lhe trazia você ardia de formas irreconhecíveis e se perguntava como tais antíteses faziam tanto sentido quando trancadas num corpo só. Talvez o tempo desse conta. Talvez você nunca se cansasse. Mas ele se foi e feito uma avalanche só restaram as memórias pra se esmiuçar: agora com mais clareza, pois há coisas que só se nota quando se perde... Como seus efeitos, que só se fizeram perceber quando partiu. Sua ausência agora dói. E o mundo se revolve cinza. Talvez seja melhor fechar os olhos.
(Dezembro 2011)
Amarelo
Por você, tal ousadia cabe.
Querer o divino em minhas mãos de gente
Pra simsalabinhar essa realidade dura
Que quebra as mentiras de tão doce girassol.
Pra você, sonhos altos:
Músicas que obriguem a fechar os olhos
Sorrisos que façam inveja no passado
E um futuro colorido, em forma de arco-íris.
E você, pedaço pulsante
De meu coração inteiro
Que o aqueceu alheio
À frieza do que vivi.
Ah, girassol
Você o fez tão grande e forte.
Se soubesse de tamanha dor
Que abraçaria por ti...
(Agosto/Setembro 2011)
Querer o divino em minhas mãos de gente
Pra simsalabinhar essa realidade dura
Que quebra as mentiras de tão doce girassol.
Pra você, sonhos altos:
Músicas que obriguem a fechar os olhos
Sorrisos que façam inveja no passado
E um futuro colorido, em forma de arco-íris.
E você, pedaço pulsante
De meu coração inteiro
Que o aqueceu alheio
À frieza do que vivi.
Ah, girassol
Você o fez tão grande e forte.
Se soubesse de tamanha dor
Que abraçaria por ti...
(Agosto/Setembro 2011)
Raiz
há muito já não pensa na razão de lutar
há muito não sonha.
são caminhos pelos quais não deve se aventurar
o porquê, o pra quê, o pra onde
o por onde
por onde se foge daqui.
há muito só tenta
e cai e tenta e é derrubada de novo
sustenta
esse sonho morto de vida leve
que vem e que vai,
e vai de novo e não volta
não deixa a ânsia dizer adeus.
lutar agora é parte de si
como raiz centenária que aflora do chão
cria espaços, manias, barreiras de vácuo
é dor, é força, é solidão.
hoje sabe que é forte e que deveras pode
mas em balança cruel o outro lado reside
pois em vias de procurar vencer a própria mente
enreda os únicos meios em sua própria traição
mas luta.
e sua uma luta que jamais vencerá.
mas em seu cume doloroso de eterna batalha
conforta
sabe que luta porque guerreira se fez
e por sua alma e dor guerreira será.
(Outubro 2011)
há muito não sonha.
são caminhos pelos quais não deve se aventurar
o porquê, o pra quê, o pra onde
o por onde
por onde se foge daqui.
há muito só tenta
e cai e tenta e é derrubada de novo
sustenta
esse sonho morto de vida leve
que vem e que vai,
e vai de novo e não volta
não deixa a ânsia dizer adeus.
lutar agora é parte de si
como raiz centenária que aflora do chão
cria espaços, manias, barreiras de vácuo
é dor, é força, é solidão.
hoje sabe que é forte e que deveras pode
mas em balança cruel o outro lado reside
pois em vias de procurar vencer a própria mente
enreda os únicos meios em sua própria traição
mas luta.
e sua uma luta que jamais vencerá.
mas em seu cume doloroso de eterna batalha
conforta
sabe que luta porque guerreira se fez
e por sua alma e dor guerreira será.
(Outubro 2011)
Alienígena
Era final de tarde e eu já pertencia a outro mundo, o que transtornava porque eu parecia a mesma terrena pela manhã. E em nenhum momento pressenti a ruptura, apenas a percebi como verdade incontestável, incrustada em minhas entranhas já meio alienígenas. A mudança veio suave como um levitar: o meu, deixando o oxigênio dos terrenos; abandonando o sentir e abraçando um novo tipo de eco que ecoa a própria solidão. Solidão. Essa foi a pior parte, não o saber em si, o conhecimento cruel que te tira do chão e te coloca no limbo. A pior parte foi perceber aquela fina camada de sensibilidade que me separava das outras pessoas, que as tornava incapazes de entrar. O vazio me era subestimado, percebi, quando fraquejei diante de tal imensidão destinada ao meu próprio tormento; e é subestimado por todas as pessoas que não conhecem tal dimensão. E ali, com tanto espaço e tempo disponíveis, tirei minhas conclusões livres de qualquer influência mundana, e mesmo sem saber impus uma distância ainda maior a quem ousava se aproximar, por medo de querer demais uma companhia. Aprendi muito, também. Aprendi o que é sentir-se apenas consigo mesmo em meio àquela multidão que fala, fala, fala e não compreende, nem tenta e nem pode, por sorte. Aprendi a disfarçar a dor. Porque dói saber de coisas que nos separam do resto das pessoas. Dói o infortúnio que o acaso jogou em minha cabeça quando me apresentou a podridão dessa terra. Dói tanto que me viro pelo avesso a procura de qualquer coisa e grito um apelo que só ecoa em mim mesma. Dói a lembrança que não vem mais, mas deixou fincada como ferro em brasa em minha testa a marca daqueles que não são deste mundo, mas que pertencem à essência fétida dos humanos sem alma. Dói, e no abraço da dor me fundo à sua imundície. No final, eu sou a mesma coisa que vivi. No final, não mereço que ninguém me conheça.
A solidão me cabe, enfim. Talvez seja essa a aclamada justiça do mundo.
(Julho 2011)
A solidão me cabe, enfim. Talvez seja essa a aclamada justiça do mundo.
(Julho 2011)
Aríete
Se eu soubesse antes de seu enervado perjúrio não o teria convidado a entrar de forma tão polida. Tentaria expulsá-lo a pontapés. Ignorei de bom grado suas primeiras trancas tímidas; o ruído do trinco ressoava suavemente em minha cabeça como um eco distante de um passado indesejado. Achei conveniente. Achei mais fácil do que mirar seus olhos escuros como breu. Na verdade, naquela época você nem me parecia tão consciente ou tão separado de minha cabeça; não me culpo por não imaginar que você escorregaria por debaixo da porta. Quando me dei conta, poderosas trancas de aço me mantinham fora de minha própria memória, que se contentava em me atormentar aos poucos, sempre presente mas nunca por inteiro. A porta impedia a minha entrada mas nada tinha contra os sussurros corpóreos que você mandava pra que eu não pudesse ter paz. Tenho pra mim que a única coisa maior que a raiva de minha imprudência é o pavor. O pânico de gosto amargo que me vem. Como se junto com você, atrás da porta, também estivesse quem eu era. Como se, ao arrombar tal obstáculo, eu fosse me deparar com verdades cruéis sobre minha própria natureza. Tenho medo de sua capacidade de me transformar, me moldar entre suas mãos como argila. Tenho medo de não saber o caminho de volta depois de me perder entre suas artimanhas. Então o impasse foi amarelando em minha mente enquanto aprendi, pelo medo, a me acostumar com sua presença, constante presença, intermitente presença terrível. Fui esmorecendo minha teimosia enquanto você soldava as fechaduras e fortalecia sua caixa-forte. Fui perdendo o controle enquanto você ganhava espaço na minha cabeça. E fui boa nisso, muito boa. Lidei com meus pesares sozinha enquanto você insistia em me perturbar. Me conformei com a resignação que me pesava como chumbo. Fugi. Ignorei seus rastros. Me recriei em camadas e você ali, no centro, feliz em se mostrar só pra mim. Te camuflei em mim mesma até sua ousadia ser tanta que não pude mais. A idéia martelou minha cabeça por semanas até que eu me permitisse considerá-la. Você rugiu em resposta, de seu cativeiro. E, apesar do medo martelar minhas costelas, sua raiva infantil me trouxe um prazer doentio. Atingi você através das barreiras de aço. A idéia então virou certeza em todos os meus nervos. Tenho medo, tenho dor, tenho sede de paz. Mas não preciso de mais barragens de aço. Preciso de um aríete.
(Junho 2011)
(Junho 2011)
Marasmo
Marasmo como conotação literal: você me acostumou ao maremoto inconstante das obsessões e agora só. A neblina desce sobre o meu barco à deriva que mal se move. Seu oxigênio agora é átomo. O meu é marasmo. Marasmo asmo de asma ausente. Marasmo morto de indiferença. Até isso. Marasmo podre de tão sem sal. O seu me era tão combustível inflamável e agora só. Esse tédio monóxido que me flui pelas narinas. Monóxido monótono de orgulho e mágoa. Mar sem sal nem açúcar. Asmo. Amor ausente de asmo. Você era a fonte e agora só. Agora só.
(Março 2011)
(Março 2011)
Memória
E entre todas as lembranças doces que a vida me trouxe, porque essas? Quer guardá-las, tudo bem; satisfaça sua nostalgia contraditória da dor, envolva-as em sua cúpula dourada de sofrimento. Tenha-as, mas como o que realmente são: memórias. Não guarde a mágoa. Não guarde o medo. Não preserve cada detalhe. Deixe o tempo vir e anuviar tudo aos poucos. É sua escolha, mas a dor é minha. Minhas unhas arranhando a minha pele. E você, no seu invólucro de entidade abstrata, incapaz de sofrer como sofro, escolhendo a dedo o que mais lhe apetece, revolvendo as lembranças em meus sonhos como se fossem dias, e não anos, de distância. E você, na sua hipocrisia carente de amor e mácula, que me diz tão desejosa de um calor aconchegante e me obriga a aspirar o contrário. E você, que me define assim, fugindo ao meu suposto controle. Parece contorcer-se de prazer ao procurar a própria ruína. Pois sem mim, esse ser que você tanto corrói, você não é nada. É a fraqueza solitária do que não tem corpo, do invencível que nos atormenta em nossa própria cabeça: a dependência parasita de nossa existência. É, contra ti, meu único triunfo.
(Março 2011)
(Março 2011)
Quem é você?
E ele perguntou, "Quem é você?", e eu disse, "Todas as suas preocupações embaladas numa pessoa só, pior, numa coisa que fala e pode sair contando as coisas por aí." Não consegui que ele se assustasse. Na verdade só ganhei um sorriso do tipo mais sincero possível: o irônico. Ironia mesmo é que eu cumpro tudo que prometo e dessa vez tinha que dar errado, eu ganharei mais sorrisos irônicos e morrerei de raiva. É por isso que eu não gosto de mentir. Se eu dissesse a verdade dessa vez, contaria para ele (em segredo) que eu sou o fruto de todos os seus desejos. Ha, mas é muito mais legal vê-lo ignorante quanto a mim, mesmo que me despreze e não saiba que precisa de mim como precisa de oxigênio. Tudo bem, eu faço meu papel mesmo assim. Toda vez que ele esquecer como é sentir o fogo por debaixo da pele eu apareço de noite e o deixo louco, ele nunca vai saber que não sou um pedaço dos seus sonhos sem sentido. Quando ele me ver de dia serei apenas um déjà vu meio embaçado. E diante de tudo isso, eu enlouquecerei também. Seremos dois loucos nas noites sem lua, embolados por todos os cantos sem ver um ao outro. Eu amo esconder tudo isso nos meus sorrisos de indiferença enquanto ele me percorre com os olhos e pergunta daonde diabos ele tirou tanto desejo assim. A história é que eu não presto para nada a não ser despertar o que há de maior nas pessoas. Bom, não foi isso que eu disse para ele, nós continuamos trocando perguntas sem sentido e esperando inconscientemente que a noite chegasse. "Quem é você?", ele perguntou de novo, e dessa vez eu disse "Ninguém." E mesmo assim ele não acreditou por inteiro.
(Abril 2009)
Catedral
Eu corria entre as árvores aquela vez em que você me chamou. Eu corria e sentia o vento e acreditava que poderia sair voando dali se corresse um pouco mais rápido. Corria mas podia ver cada tronco passando como pilares de uma catedral. Pintasse tudo de branco. A catedral podia ser enorme; eu correria entre as pilastras grossas como troncos e acreditaria que Deus me tiraria dali se eu corresse um pouco mais rápido. Eu não ouvi você me chamar porque você já estava longe, e eu continuei correndo até chegar no fim do jardim e tudo se dissolver como uma peça de teatro muito mal ensaiada, tal qual o susto que tomei, todo mundo teria visto. Girei ao redor de mim três vezes até perceber que você já estava longe e não atrás de mim. Eu ri e minha risada ecoou pelo ar como se dominasse o mundo. Deixei o mundo para trás e voltei a correr, as árvores passando agora como barras de uma prisão que me deixava cada vez mais livre. Presa dentro de mim mesma, pensei. Assim eu iria longe. E talvez tivesse ido, talvez tivesse passado por colunas gregas desbotadas ou ruínas de alguma cidade antiga se você tivesse aparecido atrás de mim novamente. Mas cheguei a voltar às árvores para girar em torno de mim mesma e buscar você com o olhar, aonde você teria ido? Quem sabe em algum subterrâneo de uma pirâmide? Eu ri, mas minha risada se submeteu ao vento agora uivante que dançava entre as árvores e me levava junto. Corri até a noite cair, as árvores se tornarem vultos à espreita e o medo me atingir, frio como gelo. Corri até que as árvores eram casas, muros e prédios, e corri acreditando que você surgiria diante de mim se corresse um pouquinho mais rápido.
(Março 2009)
Claro como água
Depois do tiro, houve muita coisa de que me desviei; sua foto, por exemplo. Nunca mais permiti que ela me encarasse com o negrume engenhoso nos olhos, engenhoso demais. Eles me remetem àquele tempo suicida, em que eu podia fugir da vida. Tal feito só faz com que eu me lembre o quanto preciso eclipsá-la hoje. Aquele tiro maldito... sua vingança, eu sei, por toda a dor que lhe causei e por toda a angústia que lhe dissolveu como pó em água. Não existiria melhor artimanha, nunca conheci esse seu lado hostil. Os melhores desforços são os forjados por amor. Depois do tiro, minhas mãos tremem e eu desejo uma seqüela mais forte. Escondo-me na bruma espessa e revolvo as memórias em espiral. Prometera a ela naquele dia, e a partir disso minha vida pareceu se dividir em antes da promessa e depois da promessa. Fútil. Seu coração já desfalecia em mim e ela rogava pela eterna vivência. Num lapso de intuição, afirmei sem comiserações, "Se eu não morrer hoje, se não morrer hoje, não morro mais". A bruma gira mais e traz o negrume dos olhos tão perto que me perco. O espanto arregalou-lhe os olhos, e a escuridão remete-me até hoje à sua respiração sem passo. A rua tornou-se menor e vi abominação amanhecer na escuridão esbugalhada. Talvez tenha sido isso o estopim de sua razão, tão bem camuflada em seus rogos piedosos. Talvez a partir desse momento ela arquitetava a vingança em sua mente. Como nos primórdios, minha intuição se fez real em trinta segundos, e ela sorriu com os olhos tomados pelo fogo. Rubros. O tiro veio rápido do outro lado da rua, e fechei os olhos enternecido pela morte iminente. A morte não combinava com o peso morto aos meus pés, e pela primeira vez em minha vida falsa, senti demência. Ela perecia em sua crueldade calculista, e o sangue jorrava por todos os lados de seu corpo pequeno. Eu não morreria, e seria obrigado a viver pela promessa. Sem ela. Hoje seu amor me é claro como água, assim como o meu, mas sua desforra me tira o calor, seu plano cuidadoso. Faça-o viver. Faça-o sofrer. Sofrer como o pior possível. Depois do tiro, em meu suicídio só há contradições. Eu não poderia viver sem ela, ela não poderia viver sem mim. Eu a amava, ela me amava. Mas ela me odiava também.
(Maio 2009)
Quando vem
Quem eu sou quem eu sou quem eu sou ô coisa difícil de pensar. Adoro descrever tudo mas isso, hein. A coisa é que cada hora eu sou uma coisa no minuto seguinte já virei outra e mais outra e aí já não sei mais de nada nunca sei de nada mesmo. Meu signo diz que sou mutável acho que sou mesmo mas sou porque nasci em maio na hora tal ou porque... É? Quando vem essas coisas de signo e espiritualidade eu penso que sou só descrença. Só descrença e racionalidade e calculismo e pô, isso me faz uma pessoa ruim? Sei lá, isso de preocupação em bom ou mau, sei não hein. Moralismo ridículo às vezes, todo mundo segue e eu não entendo porquê mas acabo seguindo também. Todo mundo, é, mundo grande e eu aqui. Quando vem isso de mundo grande penso que sou só solidão. Conheço um e outro mas sei lá, só eu me conheço mesmo. Sozinha, me dói mas é isso mesmo, finjo que não mas ah. Essa mania que as pessoas têm de eleger umas às outras, ó meu primeiro lugar essa sim merece o título essa sim é pra sempre melhor amiga pra sempre e sempre. Tudo baboseira besteira idiotice, queria dizer tudo de uma vez só. E eu não tenho ninguém. O tempo passa passa e eu continuo sem ninguém só eu sozinha mesmo. Vivo bem mas sei lá. Essa coisa de tempo passando assusta, não assusta? Assusta sim, ô, eu sei. Passa tudo rápido ainda estou tentando entender um dia e já passaram cinco outros dias tudo de uma vez não consigo nem acompanhar não consigo mesmo já nem tento mais. Aí fico toda nostálgica e quando vem isso de nostalgia eu penso que sou só saudade. Saudade dos cinco minutos anteriores que não existem mais pensa assim o milésimo passado já não existe mais e aí. E aí nada já passou também. Saudade também daquele ano que eu estava perto de tudo do bom do ruim de tudo tudo mesmo. Tava envolvida nas atualizações de todo mundo sem alienação tava sim tava sim. Hoje a semana passou e ó. Tô aqui. E ninguém viu. Quando vem isso de invisibilidade eu penso que sou só mais uma tentando se entender e fracassando, é, na verdade todo mundo faz isso. Sou meio estranha tudo bem mas acho que sou igual a todo mundo. Não gosto de generalizar mas é sim. Igualzinha. Escrevi escrevi escrevi e nada, todo mundo fala fala fala e também não chega a lugar nenhum viu só como eu sei. Sei sim. Quando vem isso de sei penso que não sei de nada. E quando vem isso de nada penso que.
(Abril 2010)
Neve
eu queria que fosse a paz mais neve que vento
que lembrasse manjar branco e durasse muito tempo
para ouvi-la sussurrar minhas notas tristes
presentear meus sonhos com sua certeza em riste
eu só criei três vezes um mundo em fantasia
envolto em véus e feras de insípida harmonia
onde eu pudesse deitar minhas dores e amores
onde eu pudesse ajustar, recuperar as flores
os dias frígidos são lembrança do passado em guerra
tão efêmero e constante que mal posso acompanhar
como um pedaço de céu que viesse à terra
pra me provocar, só pra me provocar
eu queria seus beijos de papel na minha roupa
eu escreveria mil sonetos, desenharia puro contento
daria a tranquilidade fina por suas mãos de louça
por seu amor de mel, ah, só por ele eu tento
(Setembro 2008)
Dedicação total a você!
Farei da solidão uma pessoa e do azar uma benção. Farei poesia das tristezas e nada nunca vai doer. É, é assim que eu vou arrumar a minha vida. Mentaliza, pessoal. Vibrações positivas ajudam. É só acreditar! Tudo ficará bem, é só você entrar naquela igreja da esquina, sabe, que é pobre mas honesta e tem fé em Deus. Todo poderoso. Ele me ama, sabia? E eu tenho que amá-lo. É melhor obedecer, cara, tá nos mandamentos. Senão, o demônio, ó. Só não esquece do dízimo. É tudo tão lindo e feliz que eu vou acordar todo o dia pra ver o sol nascer. Vou correr pela rua com um shorts esportivo e um sorriso colgate. Darei bom dia para todo mundo, que lindo! Porque todo mundo realmente se importa comigo, oh, Sadiaaa! Exatamente, coma presunto todas as manhãs, com maionese hellmans e bisnaguinha panco, você será feliz. Todo mundo vai te amar, de verdade, cara. Tá na TV. A gente se vê por aqui! Engraçado, eu não me vejo em porra de lugar nenhum. Mas tudo bem, nem tudo está perdido. Vá ver um psicólogo, tome uns antidepressivos e veja como o mundo é fodão. Acorde todo dia e agradeça pelo ar que respira. E não esquece do filtro solar! Não, pense pelo lado bom, você tem saúde. Pensa cara, olha que sorte: você não tem câncer, taram! Nada pode te machucar. Amigo, isso aí é tédio, sério. Você está triste só porque você quer. Tem tanta coisa boa pra se ver... só não olha para aquele lado ali, ok? Combinado? Beleza então, continue em frente. Nada acontece por acaso. Nadinha! Tudo que vai volta, tá vendo aquele filho da puta ali? Relaxa. Um dia ele vai ter o dele. Só não espera de pé. Grande justiça do mundo! E você aí triste, por nada. Tsc, tsc. Decidi: a partir de hoje eu vou ser feliz, não importa o que aconteça! Sabe porquê? O amor existe, cara, não é o máximo? Tá todo mundo super interessado nele e nos benefícios que ele traz. Fique feliz por isso! Porque realmente, todo mundo se interessa se você está bem ou não. Sério! Você mora num condomínio com câmeras e porteiros que te amam e te protegem. Nada pode te acontecer. Ninguém vai te machucar. Iupi. Você não está sozinho. Deus sempre estará contigo! E não, claro que nada disso é clichê: funciona! Mudou a minha vida. Vá para o Emagrecentro mudar a sua.
(Dezembro 2009)
Sopro
Ela foi lançada tão sutilmente no ar que se poderia encarar como um passo de dança, se não fosse o som de seus ossos se quebrando como papelão. Talvez seja minha imaginação, mas penso que naquele minuto pude contar as batidas do coração que restavam. Seus cabelos lisos se espalharam, o que me pareceu irônico, já que eu sempre achei cachos mais poéticos. Mas eu não desistiria, e sua morte seria linda e leve como ela esperava, e eu também. Eu faria poesia.
Pensei numa frase feita, e me pareceu clichê. Como descrever as ondas que o próprio vento pareceu contornar ao tom do impacto? Como explicar o reflexo da cor azul gritante sobre o giz da sua pele? E aonde todo o meu amor faria jus ao propósito da coisa? Não posso com dores gritantes, impossíveis de se camuflar. Quero algo como lírios rosados ou o assobiar da maresia, porque não? Como uma raiz branca incrustada na rocha, ela se espalharia pelo céu enquanto o chão corria de seus pés.
Assim, parece fácil. Apenas uma bailarina que rodopiava no ar, a bailarina mais linda do mundo.
Mas aonde eu esconderia os meus pedaços?
(Junho 2009)
Treze em doze
Chorou quando treze eram doze e os diabos já não viriam mais. Desapontei-me. Chorou feio, soluçando como se a cada inspiração três saltos fossem necessários. Conheci a melancolia teatral à força; talvez precise lhe transmitir alguns ensinamentos. Deveras, eu sempre soube. Não gosto que se desfaçam assim como se eu forjasse planos ardilosos para sobreviver. Nunca fui um canalha aristocrata. Traria orgulho do cabeçalho ao rodapé se soubesse tamanhas engenhocas. Agora vejam, toda essa tempestade! Reconheço uma verdade ínfima, mas de que adiantam os rodeios? Treze dias, e a obsessão carregava-se a cada hora - eu temia. Não podia imaginar, mas fiquei insatisfeito pela ausência de meus instintos; deveria saber que apenas doze horas distintas seriam equivalentes a toda essa franqueza. Confesso que já burlei algumas regras pessoais. Mas não, dessa vez não fora minha culpa! Eu faria muito pior se quisesse. Entretanto - entre, tanto, claro, mais que nunca - tantos dias felizes não foram suficientes, foram? E ela pôde me atirar aos cães com toda a sua dignidade imaculada, ah, diabos! Se conseguisse asas, eu devaneava para longe até que sua fé perdesse um compasso. Quem sabe assim poderia fazê-la ver, poderia tirar de sua face o orgulho cego e mostrar como sofro também? Essa seria a minha prova - a dor, o ácido. Qualquer vivente poderia identificar a minha falta de frieza. Afinal, se pudesse arquitetar, não usaria isso em favor à minha própria sorte? Não condiz com meu célebre auto-sacrifício. Não condiz com a vontade de morrer por ela, e apenas por ela... Nem por mim mesmo conceberia tal feito.
(Julho 2009)
Três amores
Seja o amor singelo de uma donzela crível,
seja o quase ardor impuro de uma meretriz
Deixe-me banhar sua pele com um rio de ouro
Brindemos à minha dor injusta e aos meus sonhos vis
Eu sou ferro, punho e fogo em seu caminho simples
Sou a verdade crua sobre cada passo imaculado
Pois seu sofrer é menos que minha primeira lágrima
Mas seu clamor é mais que meu menor enfado
Dirá que o amor te fez de cicatriz?
Deveras haverá feridas incuráveis
Eis que nenhuma delas lhe tomou de ardil
Jogue aos céus seus infalíveis brados
Julgando a dor que nunca sentirá
Crente no amor que tampouco sentiu.
(Março 2009)
Zé Balinha e os artifícios vigentes
Era José Mário da Bala, José Mário de nascença e o resto dos botecos de São Paulo. Sustentava-se como funcionário da Empresa Metropolitana de Transportes Urbanos, e trabalhava de cinco a sete horas por dia, com variações, alternando entre o sono e a sede da tarde. Conhecia a periferia e certos brejos do centro, graças às andanças que o ganha-pão lhe provinha. Três de seus trinta e dois anos - glamourosos anos, como costumava dizer - foram dedicados à EMTU, os dois primeiros como motorista, agora como cobrador. Anunciava as maravilhas do ofício como se fosse rei das ruas da metrópole, e conhecesse cada andar de seus prédios culminantes, ou prevesse suas chuvas e enchentes abundantes do verão. Com o tempo e a praticidade nata do trabalhador, desenvolvera uma habilidade instintiva para com o negócio. Dormia facilmente com as chacoalhadas do ônibus, o fechar de olhos se tornara um processo natural. Mas, à primeira pisada no freio do motorista, alertava-se e ali estava, pronto para as contas e o dinheiro, tanto que parou de dormir à noite - lhe faltavam os trambolhões. Tinha quatro filhos, dois meninos e duas meninas, porque acreditava no amor e não em Deus. A esposa, Maria da Anunciação, o chamava de Zé Balinha, assim como os íntimos, e a cada filho deram o nome de seus pais e mães. Arminda, Marta, João e Clauzins estudavam na escola pública ao lado de casa, e José Mário os via só à noite, e na missa aos domingos. Era cristão por conveniência, para evitar que Maria lhe falasse sobre os pecados e o coisa ruim. Conheceram-se e casaram-se na capelinha de Santa Efigênia, duas ruas acima da residência modesta, e José Mário virou cristão para que ela o amasse. Não tinha fé no céu, no inferno ou na danação eterna, só queria morrer de velhice, e ser enterrado num daqueles caixões sem estofado que lhe lembrassem o ônibus, para que pudesse descansar em paz, e sonhar com vaivéns. Diria-se no epitáfio: Aqui jaz José Mário da Bala, rei das ruas, que dorme sacolejando. Pareceu-lhe adequado dizer isso à mulher, que pestanejou e piscou os olhos ignorantes, sem entender, mas prometeu cumprir o que lhe dissera. Mal sabia Zé Balinha, ou tampouco Maria da Anunciação, muito menos Arminda, Marta, João e Clauzins, que a morte o levaria cedo, num dia de verão da semana seguinte, por um acidente envolvendo o ônibus do ofício, um prédio culminante, uma enchente fatídica e alguns pedestres, na frente da sede da EMTU, ao final de trinta e dois glamourosos anos de império metropolitano e descrença cristã.
(Setembro 2009)
Imundície
Ele estava lá, e eu só conseguia pensar, e pensar, e os sussurros saíam por entre meus lábios antes que eu pudesse refrear, e perdi o controle; como uma fenda que se abre na barragem e, nem tente, alguns segundos depois, foi-se tudo. Sentia-me febril e tremia e mordia os lábios frios enquanto gorgolejavam as palavras pouco distintas umas das outras; encolhi-me num canto e ah, olhe só, tremia mais. As palavras, três, apenas três. Disse-me-disse e repeti. E nem todo o fervor que incitei em mim mesma deixava sair o tanto que eu desejava... o quanto eu queria que, se Ele existisse, atendesse minhas preces. O chão estava tão sujo. Eu estava tão suja. Meus sussurros eram sujos, e a forma como eu o olhava como se pudesse fazê-lo eu mesma com a força do pensamento era imunda. Nadávamos na imundície rasa de nossa própria decadência. Nos afogávamos com os pés no chão. Eu mal podia respirar e, no entanto, a podridão se infiltrava por minhas narinas e era absorvida por minha pele; me vinha uma ânsia de gritar por socorro, um socorro inútil, abafado por minha própria solidão. Não haveria ninguém. Era só ele ali. Ninguém mais, a não ser aquele que eu desejava que morresse.
(Dezembro 2009)
Fé solúvel
Entenda que falarei de fé como um observador fala de algo que não tem. O que eu quero dizer aqui não tem nada a ver com igreja ou religião; eu quero falar do coração das pessoas, da capacidade de acreditar que elas têm, e de como isso me fascina.
Eu não acredito em Deus. Não acredito que tudo que vai, volta. Não acredito na justiça automática do mundo; não consigo olhar para uma pessoa que me fez um mal enorme e pensar que um dia ela vai sofrer o que eu sofri. Acredito que a única justiça que existe é aquela feita por nós, que por um sinal não é nem um pouco justa.
Eu cresci numa miscelânea de religiões. Minha mãe acredita em tudo; meu pai em nada, só em Deus. Eles nunca tentaram me influenciar, decidiram que eu tomasse meu próprio caminho, só me falaram de suas crenças de forma imparcial. Então, à medida que eu crescia e ouvia o que as outras pessoas tinham a me dizer, eu decidia em que acreditar. Escolhia, e dizia a mim mesma "é assim". Mas sempre existiu aquela vozinha no fundo da minha consciência, que me convencia de que Deus existir seria bom demais para ser verdade. Confortante demais.
Foi assim até o dia em que eu decidi deixar que minhas teorias inconscientes se manifestassem. Eu imaginei, na minha cabeça, se todos pensassem que Deus não existia e acreditassem que nós apenas ficamos inteligentes demais, sensíveis demais, e que consequentemente precisamos acreditar que alguma coisa a mais existe. Alguma coisa que dê sentido a isso tudo. Se todo mundo pensasse assim, qual seria o maior medo das pessoas?
Pensei na morte, então. Por que se Deus não existe, se ele for apenas um fruto de conforto, depois da morte não existiria nada. Nem céu nem inferno. Pura inconsciência, para sempre. E se todos acreditassem nisso, a morte nunca seria considerada uma aventura seguinte, seria apenas um ponto final. Do que as pessoas precisariam, então? Qual seria o desejo mais profundo da maioria das pessoas? Talvez, que a morte fosse mais fácil, que fosse só um caminho desconhecido. E daí para a existência de Deus, é um pequeno passo. Não seria bom que todo o mal que alguém causasse na terra fosse pago depois que a pessoa morresse?
A minha conclusão final foi que Deus é só isso, uma resposta para os nossos medos mais íntimos, mais irracionais. E eu acho que tomei essa conclusão justamente por ser racional demais, espiritual de menos. Percebi que sempre acreditei nisso, no nada, desde o começo; nunca tinha parado para pensar. Mas isso não me faz uma pessoa corajosa, acreditar que depois da morte não tem nada, por que desde que eu descobri no que realmente acreditava eu tento desesperadamente desmentir a mim mesma.
Deixando minha ausência de fé de lado, comecei a observar as pessoas à minha volta. Tanta gente que dita suas crenças, tanta gente que as guarda para si. E em muitas eu reconheci um medo enorme de morrer que as fazia acreditar, pessoas dotadas de uma fé solúvel, impura, que era apenas fruto de um desejo inconsciente. Mas, contrariando todas as expectativas, em algumas pessoas eu vi apenas... fé. Toda a fé que eu busco o tempo todo, numa pessoa só. Uma fé tão simples, tão verdadeira, incontestável. É dessa fé que eu falo como admiradora. Para tê-la é preciso tanta coragem e sinceridade consigo mesmo, tanto amor ao que quer que for que chamam o seu Deus..
Não que eu classifique as pessoas em Com fé ou Sem fé. Há muitas pessoas que eu conheço muito bem e não saberia aonde colocar; e essa classificação me seria inútil. E se me perguntar se Deus realmente existe, eu direi que acho que não, mas não tenho certeza. Porque tem uma parte de mim que quer que ele exista, uma parte que é tão infestada de medo e insegurança que às vezes me domina, Deus tem que existir, tem que existir. Na verdade, tem horas que eu penso, tanto faz, tanto fez; o que tiver que ser, será, mesmo que eu não estiver pronta para o que vier...
(Abril 2009)
Eu e eu
Respira fundo, esquece um pouco. Isso. A sensação continua rodando sua cabeça e confundindo seus sentidos. Fica calmo, vai passar. É tudo coisa da sua cabeça. Sabe o que é isso? A culpa te rondando. Culpa contra você mesmo, egoísmo, é. Você estragou tudo, não foi? Mas que merda, porque você sempre estraga tudo? Tá, desculpa, eu devia estar cuidando de você mesmo. Apóia a cabeça aqui. Respira fundo de novo. Isso. Tá melhor? Quer um pouco d'água? Sua cabeça balança no ritmo da música. Up, down. Você não tem idéia de como isso me ajuda, saber o que você vai fazer em seguida. Abaixo, agora. Se ao menos seu coração não estivesse tão pequeno... É como se fosse um vácuo sofrendo pressão do ar lá fora, querendo entrar. Porque você não deixa o ar entrar? Nem imagino o que você deve estar sentindo. Quer uma ajuda? Tem algo que eu possa fazer? Não tem sangue, não tem lágrimas. É aquele tipo de dor que sai por debaixo das unhas, pela raiz dos cabelos. Quer mais um cobertor? Você está tremendo. Eu estou tremendo. Ou é tudo a mesma coisa? Eu ainda escuto o seu coração bater, ele ainda está ali, eu juro! Volte! Ainda tem amor no mundo. Não é tão ruim assim... Você precisa ser o pior em todas as coisas? Você procura o melhor que todo mundo tem e o pior que você nem tem. Não deve ser tudo isso. Pára de se contorcer, nem está doendo de verdade. Quer que eu cante para você dormir? E porque diabos está tão frio por aqui? Você está do meu lado, mas eu me sinto tão sozinha... Entendi o motivo do vácuo: o ar está muito poluído por aqui. Não merece te conhecer assim... Não merece conhecer ninguém.
(Maio 2009)
Arquivo 11
"Um destino um pouco diferente do que imaginavam", pensei, enquanto folheava as páginas de um artigo já amarelado dos arquivos da Biblioteca Municipal. O recorte de jornal falava do destino que os "homens perfeitos" como eu deveriam cumprir; e em quais tiveram êxito e em quais fracassaram. Um grande equívoco; se o destino existe, um suicídio não pode ser considerado um fracasso, apenas algo que deveria acontecer. O homem contraria suas próprias especulações.
Procurei um nome em meio a tantas reportagens da pasta "Arquivo 11" do acervo de notícias da biblioteca. Me deparei com uma foto de Jeremy e a notícia de seu suicídio. Cerrei os dentes. Ele foi a única pessoa que viveu o mesmo que vivi sem deixar-se corrromper pelo poder; e atirou em sua própria cabeça num restaurante em Los Angeles, onde jantava comigo. Eu jamais esquecerei o que ele me disse naquela noite.
- Nathaniel, eu vi o futuro. Eu estive lá. - seus olhos se encheram de lágrimas. - Vai ser horrível.
- Eu estarei contigo, Jem. - eu só pude balbuciar.
- Sinto muito, mas eu não. - foram suas últimas palavras.
Meus pensamentos foram interrompidos pela foto de um homem de feições iraquianas que eu não reconheci. A legenda dizia "Saiyd foi o idealizador do projeto Arquivo 11, que acelerava em milênios a adaptação humana. O projeto vai além de adaptações físicas como perda de pêlos ou dentes; abrange uma evolução cerebral de mais de 50%..." Eu sabia a história de cor.
Uma semana depois, aquele rosto, um pouco mais velho, estava na minha frente, sob a mira de uma arma controlada por minhas mãos. Eu não atiraria sem dizer a ele o quando ele fizera mal.
- Você matou Jeremy.
- Não foi a minha intenção. - ele estava calmo, calmo demais.
- O homem perfeito.. você queria criar um homem perfeito, evoluindo sua inteligência e adaptação. Mas a perfeição vai muito além disso! Você evoluiu a imperfeição ao alongar o medo, a raiva e a ambição das pessoas que submeteu ao seu invento.
Eu não precisava dizer mais nada. Ao tirar a granada dos bolsos, pensei na reportagem da biblioteca. Estaria eu cumprindo meu destino? De uma coisa eu tive certeza: êxito. Eu não fracassei. Grande êxito.
Puxei o pino.
(Setembro 2008)
Pulso
Ah, pungiu me como ferro à pele o negro pulsante daqueles olhos sombrios. Três segundos se passaram e eu soube que me marcaria pra vida inteira como uma sábia cicatriz. Uma mão de aço envolveu minha mente e tudo girou. Fraquejei.
Ah, me dê mais três segundos e eu volto ao normal. Está tudo bem, eu consigo respirar. São apenas alguns devaneios antigos, sabe, vieram à tona, imagine, assim do nada! Eu posso me levantar, só me dê a sua mão, sim?
Ah, que cheiro doce. Sua camisa recém-lavada roçando em meu rosto, hum, não me coloque no chão ainda, eu quero respirar por aqui mais um pouco. Por trás de meus olhos fechados eu ainda podia vê-las; duas bolas negras brilhantes, pulsando, agora seguramente distantes de mim.
Ah, mas não vá para longe, não. Não por enquanto. Ainda posso sentir o arder da cicatriz, feroz como a descoberta; você irá para longe, mas não agora, por favor. Não pare de afagar meus cabelos, não pare de sussurrar preocupações inerentes ao meu ouvido. Não ainda.
Ah, era tudo que eu queria, mais um instante que fosse com seu sorriso caloroso e seus olhos amargos de fel. Obrigada por voltar nesse segundo. Está tudo bem, eu estou feliz agora, estamos juntos novamente. Você não sabe o quanto eu esperei para..
Ah, bom dia, um novo dia. Bom dia para o Sol que desce entre as persianas da minha janela e aquece meu rosto molhado pelas lágrimas. Bom dia para mais um dia infestado de pensamentos sobre mais um sonho que eu cansei de rejeitar.
Ah, se eu fechar os olhos agora, será que poderei sentir seu cheiro doce, ou ouvir sua voz? A mão de aço agora aperta minhas entranhas, instigando, mordendo; seus olhos ainda pulsam em meu peito, sua cicatriz ainda arde em minhas veias.
Ah, desisto. Me levanto da cama, forço a mão de aço a se redimir, ela voltará. Quase pude senti-lo dessa vez. Desisto.
(Dezembro 2008)
São Paulo no caminho certo
A noite parecia mais escura do que o normal, e a rua por onde eu caminhava faria minha mãe enlouquecer e me esconder no lugar seguro mais próximo, se estivesse presente. Por mais que várias pessoas suspeitas andassem nas sombras, e de terem mexido comigo mais de uma vez, eu me sentia tranquila; naquele final de semana, aquela era a minha casa. Olhei para o lado; minha prima mantinha os olhos à frente, indiferente como eu. Era isso que me fazia fugir para ali quando minha casa original se tornava insuportável; éramos só nós duas, o tempo todo, e eu me sentia tão à vontade naquelas vielas que poderia estar sozinha que o medo não me atingiria. O que eu mais temia ficava longe dali. Então, o que viesse só poderia ser lucro.
Chegamos ao fim da rua; a avenida em que desembocamos refulgia pela luz dos tantos carros e motos atravancados no trânsito. Vários mendigos se enfileiravam numa praça próxima. Continuamos a andar, sem nem perceber aonde estávamos indo, automaticamente; a pizzaria barata ergueu-se numa esquina, e entramos ali, os dez reais em moedas apertados na minha mão.
Minha prima sentou-se ao meu lado depois que fizemos o pedido, para esperar. Ela me conhecia suficientemente bem para perceber que não adiantava falar comigo agora; eu estava observando. Absorvia cada detalhe, pesando as diferenças entre aquele lugar e a cidade em que cresci.
Um par de irmãos cantava uma música sertaneja a um canto, acompanhados por alguém que tocava violão, as vozes quase abafadas pelo barulho da pizzaria. À sua frente, um casal de namorados de meia idade tomava uma cerveja, um ao lado do outro, abraçados, curtindo a música, sem conversar. À direita, meia dúzia de amigos dividiam duas pizzas, aparentemente esfomeados demais para dizer alguma coisa; e atrás deles, uma família jantava tranquilamente; o pai, a mãe, e uma menininha de mais ou menos um ano, que apontou quando um travesti entrou para falar com um homem bem vestido, sentado logo ao lado. A menina cresceria acostumada com aquilo, pensei. Cresceria acostumada a entrar em uma pizzaria e ver todo o tipo de gente, num lugar onde tudo se misturava, todas as pessoas do bairro dividiam os mesmos estabelecimentos, independente de sua posição econômica. As garçonetes avançavam entre as mesas, experientes, sem esbarrar em nada, uma expressão de intenso cansaço no rosto. A menininha aprenderia a não sentir pena das moças, que trabalhavam tanto; talvez até se tornasse uma delas. Ela apontou de novo, desta vez para a entrada; um bêbado, magro, os olhos vermelhos e as roupas sujas, entrara; ninguém pareceu reparar. Caminhou com passos trôpegos até cada mesa, pedindo comida com a voz engrolada, às vezes nem conseguindo falar. Quando se virou para mim, vi que vestia uma camiseta que deveria ser branca se não estivesse tão suja, com os dizeres "São Paulo no caminho certo."
Minha prima, preocupada com que eu pudesse me assustar, espantou o bêbado, indiferente. Quando os nossos olhares se encontraram, desatamos a rir; a cena era irônica demais. Se o caminho certo para São Paulo fosse tão trôpego, a cidade logo tombaria para um lado e dormiria profundamente, como ele estava prestes a fazer. Sabia o que minha mãe diria se me visse ali. Mas o que ela não poderia sentir, nem imaginar, era o quanto eu gostava de me misturar assim, o quanto era bom ver um pouco, quanto todos insistiam em tapar-me os olhos.
(Março 2009)
Mais do Mesmo
Era só o vazio. Qualquer coisa que ousasse florescer ali era rapidamente distorcida pelo vácuo. É, talvez a indiferença fosse mesmo a crueldade do mundo.. A falta de ar inspirava perdas, o que quer que fosse, se perdia com o tempo; não durava o suficiente pra garantir sua devida importância.. e talvez fosse assim até hoje, se não fosse por ele.
Na verdade, ele sempre esteve ali. Quando se perde a capacidade de sentir, se perde também a capacidade de acreditar no sentimento de qualquer um que queira se aproximar. Todas as intenções parecem as piores, todos os olhares trazem consigo uma insatisfação. Ele sempre esteve ali.
O carinho faz milagres, há de se concluir.
Apenas um protótipo dele, somado ao prazer do segredo; foi suficiente. Por mais que fosse reprimido, não desistiu de aquecer o frio, oxigenar o vácuo; tudo aquilo que impedia as flores de perfumarem o espaço. Ele foi mágico, foi simplório e indispensável; um carinho de resgate.
E, graças à origem, toda vez que ela decidia descampar o lugar, respirava fundo e o cheiro dele lhe vinha ao corpo. E tudo começava outra vez.
(Agosto 2008)
Vasos, mesas, cristais e a ira
Fechei os olhos e estilhacei todos eles. Opacos, brilhantes e odiosamente delicados, sobre mesas de cristal reluzentes e quebradiças. Arremessei-os pela sala e vi o verde se misturar com o vermelho quando os cacos se espalhavam. Acrescentei um azul à mistura. Gordos, magros, compridos, baixinhos; são todos a mesma coisa quando se quebram. Virei mesas com toda a força que podia, sentindo o vibrar das paredes quando desabavam no chão. Seria capaz de dar risada se não estivesse tão furiosa. Achei umas taças, quebrei-as também, e agora o chão era uma miscelânia tão colorida que me dava dor de cabeça. Isso só me deixou mais nervosa, e agarrei uma coleção de vasos coloridos tão idênticos que me insultavam. Pisei nos cacos que restaram com uma fúria doentia, sentindo o estalar fraco quando quebravam novamente, cada vez menores, até que um pó brilhante grudou na sola dos meus pés descalços - e sangrentos, reparei. Continuei chutando tudo que podia, e cada chute era um protesto contra tudo que era certo, tudo que me lembrava do quando eu podia ser errada, do quanto eu podia ser horrível. Estilhacei a suavidade, a ordem, o caráter. Agora eu quase não podia ver o branco das paredes, e gritei de raiva, pois até em pedaços eles me impediam de não me importar, e eu não queria. Não queria mais fazer esforço nenhum. Cada caco de cristal refletia tudo que eu não queria mais ver, agora multiplicado mil vezes. Milhares de olhos zangados me fitavam e eu sabia que eram meus. Minha aparência era repugnante, e só o que pude fazer foi lutar mais, mesmo sabendo que era em vão. Desabei e me afoguei em pós multicoloridos, sentindo um prazer histérico ao conseguir diminuí-los o suficiente.
Abri os olhos. Minha ira ainda era a mesma.
(Dezembro 2009)
Aos seus pés
chorei ao me deparar com o amor
e o ar se rendeu à minha falta de fôlego
por carecer te deixar, foi a dor
e a lembrança de seu desejo trôpego
e o beijo cativou meu devaneio
desandei, e aos seus pés virei criança
a inocência se mostrou como um espelho
e o pudor que a perfídia sempre alcança
mas não por mim seu olho brilhou
e não a mim foi destinado o seu apego
enquanto o anseio ardente atenuou
a vã espera me revolvia ao gelo
em um sonho feito pelos meus desejos
eu te guiarei ao inferno
e o fogo será nossa única testemunha
não haverá perdão aos nossos erros
seguiremos um rumo incerto
que em nós livremente se expunha
(Primeiro semestre 2007)
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