Vão

Espera essa que me espera tanto, espero, espero, espero o tempo que não vem. Penso que passei a vida toda a esperar essa esperança que nunca vem. Esperei triste, esperei feliz, e hoje a espera só me cansa; e vivo ainda a esperar, mesmo que cansada da espera, mesmo sem tempo pra passar. De ócio passei ao morto, na espera me vi dissoluta, dissecada, dissonante, um tédio eterno de espera passada. Esperei justiça. A que mais doeu. Espero ainda que me venha num presente de esperança perdida. Espero em vão, em vão de mim mesma, pois espero sem esperar. De tanta espera que me traz percebo que não espero nada, só mais do mesmo, da mesma loucura sem esperança que dominou os meus dias. Vejo a tolice crua da minha espera louca pela volta da espera que me trouxe ao tédio. Vejo a ironia frouxa de não ter mais nada pelo que esperar. Tanta ousadia vã.
Só espero que não espere mais força que tenho. Só espero menos sofrer a me esperar.

(Abril 2012)

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