(Dezembro 2011)
Contratempo
Ele era-te tão naturalmente necessário que seus efeitos só se fizeram perceber quando partiu. A ausência clareou cruelmente o quanto te fizeram crescer num contratempo. Sob tal luz, vê-se irônica a satisfação que insistiu em carregar como se o furor fosse fruto de si mesma. Quem dera... Irônico também é que tal saudosismo agora te parece tão indispensável, e a lacuna que ocupara tão dolorosa, que parece não considerar que viveu - e ainda vive, exceto por pequeno espaço de tempo - todo esse tempo sem sua presença. E nunca sonhou com tamanha dádiva: não pode dizer que sempre a quis. Mas agora sua ausência dói. E o ar te foge enquanto olha suas mãos e se pergunta porque não é capaz de recriá-la sozinha. Percebe que há coisas que só se nota quando se perde, como a mágica naquelas mãos de gente que tornavam bonita qualquer coisa que tocassem. E restam os porquês. Com eles, as angústias. Pois você nunca saberá porquê tudo que se tornara bonito hoje é cinza. Não chegou a decifrar a mágica o suficiente para tal explicação. Talvez, se ele se demorasse um pouco mais, você fosse capaz de fazê-la eterna. Mas ele partiu, e há coisas que só se nota quando se perde, como a calma daquele rosto em polvorosa que presenteava com a paz qualquer coisa que beijasse. E restam as lembranças. Com elas, os desejos. Pois em meio à maré de calma que ele lhe trazia você ardia de formas irreconhecíveis e se perguntava como tais antíteses faziam tanto sentido quando trancadas num corpo só. Talvez o tempo desse conta. Talvez você nunca se cansasse. Mas ele se foi e feito uma avalanche só restaram as memórias pra se esmiuçar: agora com mais clareza, pois há coisas que só se nota quando se perde... Como seus efeitos, que só se fizeram perceber quando partiu. Sua ausência agora dói. E o mundo se revolve cinza. Talvez seja melhor fechar os olhos.
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