Era final de tarde e eu já pertencia a outro mundo, o que transtornava porque eu parecia a mesma terrena pela manhã. E em nenhum momento pressenti a ruptura, apenas a percebi como verdade incontestável, incrustada em minhas entranhas já meio alienígenas. A mudança veio suave como um levitar: o meu, deixando o oxigênio dos terrenos; abandonando o sentir e abraçando um novo tipo de eco que ecoa a própria solidão. Solidão. Essa foi a pior parte, não o saber em si, o conhecimento cruel que te tira do chão e te coloca no limbo. A pior parte foi perceber aquela fina camada de sensibilidade que me separava das outras pessoas, que as tornava incapazes de entrar. O vazio me era subestimado, percebi, quando fraquejei diante de tal imensidão destinada ao meu próprio tormento; e é subestimado por todas as pessoas que não conhecem tal dimensão. E ali, com tanto espaço e tempo disponíveis, tirei minhas conclusões livres de qualquer influência mundana, e mesmo sem saber impus uma distância ainda maior a quem ousava se aproximar, por medo de querer demais uma companhia. Aprendi muito, também. Aprendi o que é sentir-se apenas consigo mesmo em meio àquela multidão que fala, fala, fala e não compreende, nem tenta e nem pode, por sorte. Aprendi a disfarçar a dor. Porque dói saber de coisas que nos separam do resto das pessoas. Dói o infortúnio que o acaso jogou em minha cabeça quando me apresentou a podridão dessa terra. Dói tanto que me viro pelo avesso a procura de qualquer coisa e grito um apelo que só ecoa em mim mesma. Dói a lembrança que não vem mais, mas deixou fincada como ferro em brasa em minha testa a marca daqueles que não são deste mundo, mas que pertencem à essência fétida dos humanos sem alma. Dói, e no abraço da dor me fundo à sua imundície. No final, eu sou a mesma coisa que vivi. No final, não mereço que ninguém me conheça.
A solidão me cabe, enfim. Talvez seja essa a aclamada justiça do mundo.
(Julho 2011)

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