Se eu soubesse antes de seu enervado perjúrio não o teria convidado a entrar de forma tão polida. Tentaria expulsá-lo a pontapés. Ignorei de bom grado suas primeiras trancas tímidas; o ruído do trinco ressoava suavemente em minha cabeça como um eco distante de um passado indesejado. Achei conveniente. Achei mais fácil do que mirar seus olhos escuros como breu. Na verdade, naquela época você nem me parecia tão consciente ou tão separado de minha cabeça; não me culpo por não imaginar que você escorregaria por debaixo da porta. Quando me dei conta, poderosas trancas de aço me mantinham fora de minha própria memória, que se contentava em me atormentar aos poucos, sempre presente mas nunca por inteiro. A porta impedia a minha entrada mas nada tinha contra os sussurros corpóreos que você mandava pra que eu não pudesse ter paz. Tenho pra mim que a única coisa maior que a raiva de minha imprudência é o pavor. O pânico de gosto amargo que me vem. Como se junto com você, atrás da porta, também estivesse quem eu era. Como se, ao arrombar tal obstáculo, eu fosse me deparar com verdades cruéis sobre minha própria natureza. Tenho medo de sua capacidade de me transformar, me moldar entre suas mãos como argila. Tenho medo de não saber o caminho de volta depois de me perder entre suas artimanhas. Então o impasse foi amarelando em minha mente enquanto aprendi, pelo medo, a me acostumar com sua presença, constante presença, intermitente presença terrível. Fui esmorecendo minha teimosia enquanto você soldava as fechaduras e fortalecia sua caixa-forte. Fui perdendo o controle enquanto você ganhava espaço na minha cabeça. E fui boa nisso, muito boa. Lidei com meus pesares sozinha enquanto você insistia em me perturbar. Me conformei com a resignação que me pesava como chumbo. Fugi. Ignorei seus rastros. Me recriei em camadas e você ali, no centro, feliz em se mostrar só pra mim. Te camuflei em mim mesma até sua ousadia ser tanta que não pude mais. A idéia martelou minha cabeça por semanas até que eu me permitisse considerá-la. Você rugiu em resposta, de seu cativeiro. E, apesar do medo martelar minhas costelas, sua raiva infantil me trouxe um prazer doentio. Atingi você através das barreiras de aço. A idéia então virou certeza em todos os meus nervos. Tenho medo, tenho dor, tenho sede de paz. Mas não preciso de mais barragens de aço. Preciso de um aríete.
(Junho 2011)

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